A lista de canções favoritas da Charlotte, segundo a autora, Tonya Hurley:
Last Night I Dreamt Somebody Loved Me - The Smiths
Get Me Away From Here, I'm Dying - Belle Sebastian
High & Dry - Radiohead
Why Can't I Be You? - The Cure
I'll Be You -The Replacements
Bring Me To Life - Evanescense
Home - Depeche Mode
I'll Be Your Mirror - The Velvet Underground and Nico
Harborcoat - REM
Strawberry Switchblade - Since Yesterday
Do You Wanna Hold Me - Bow Wow Wow
Disappearer - Sonic Youth
Only You - Yaz
The Beautiful People - Marilyn Manson
Love Will Tear Us Apart - Joy Division
quarta-feira, 13 de julho de 2011
terça-feira, 14 de junho de 2011
Excertos: «O Regresso»
«Como podemos saber quem são os nossos verdadeiros amigos?
O verdadeiro amigo é alguém que está sempre presente quando precisamos dele, alguém que tem na amizade a sua única prioridade. Dos nossos amigos esperamos que nos dêem alento nos maus momentos e que, nos bons momentos, nos ajudem a não perder de vista a realidade. Acima de tudo, esperamos que estejam ao nosso lado quando não precisamos de nada. Charlotte já não sabia ao certo quem eram os seus amigos, mas tinha a certeza de que precisava deles.»
O verdadeiro amigo é alguém que está sempre presente quando precisamos dele, alguém que tem na amizade a sua única prioridade. Dos nossos amigos esperamos que nos dêem alento nos maus momentos e que, nos bons momentos, nos ajudem a não perder de vista a realidade. Acima de tudo, esperamos que estejam ao nosso lado quando não precisamos de nada. Charlotte já não sabia ao certo quem eram os seus amigos, mas tinha a certeza de que precisava deles.»
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Crítica: «Ghostgirl - O Regresso»
«Um ano depois do lançamento do primeiro volume em Portugal, a Contraponto volta a apostar em Ghostgirl, uma série que se destacou pelo cuidado estético na sua edição e pelas influências evidentes de Tim Burton.
Após terminar o Ensino para Mortos, Charlotte Usher descobre que ainda tem um estágio para realizar: o atendimento de adolescentes problemáticos numa central telefónica.
Enquanto se debate com os mesmos problemas de invisibilidade social que tinha quando era viva, o mundo dos vivos volta a dar-lhe problemas quando Petula fica em coma.
Mesmo com um ano de intervalo entre os lançamentos, quando tomamos contacto com a escrita leve e bem-humorada de Tonya Hurley, lembramo-nos imediatamente do primeiro volume e da peculiar história da morte de Charlotte – morreu engasgada com uma goma em forma de urso.
Notam-se algumas melhorias na linguagem e na estrutura da história, assim como uma aposta mais forte no humor negro e em referências à cultura pop, que consegue tratar de forma ligeira um tema tão pesado como o da morte.
As personagens continuam tão cativantes e interessantes como no primeiro volume. São introduzidas novas personagens fortes, como a irritante Maddy, e são aprofundadas outras já conhecidas: Scarlet, Damen e Petula.
Os temas e mensagens abordados neste segundo volume não diferem muito dos do primeiro. Por detrás da futilidade e até do ridículo de algumas personagens, Tonya Hurley continua a criticar a obsessão com a popularidade, a vaidade e a traição. Apesar disso, Ghostgirl acaba por ser uma história sobre o poder da amizade capaz de transpor a barreira entre a vida e a morte.
É impossível não referir a vertente estética desta obra. Se no primeiro volume já havia um cuidado especial com a edição, neste há uma melhoria incrível. Além do cuidado da autora com as citações, capítulos com títulos de músicas pop e pequenas reflexões filosóficas no início de cada um deles, é bastante agradável ver as páginas ornamentadas e apreciar os desenhos de inspirados no imaginário de Tim Burton.
Contudo, apesar de todas as melhorias a nível de escrita e de edição – Ghostgirl não é só agradável de se ler, mas também de se ver –, a história não é tão cativante como no primeiro romance. É interessante e divertida, mas ao mesmo tempo há um sentimento de ser “mais do mesmo”.
Apesar de dirigido a um público juvenil, Ghostgirl – O Regresso vem provar uma vez mais que até os adultos podem ficar rendidos ao humor e às mensagens da história de Charlotte Usher.»
Fábio Ventura, Bela Lugosi Is Dead
Após terminar o Ensino para Mortos, Charlotte Usher descobre que ainda tem um estágio para realizar: o atendimento de adolescentes problemáticos numa central telefónica.
Enquanto se debate com os mesmos problemas de invisibilidade social que tinha quando era viva, o mundo dos vivos volta a dar-lhe problemas quando Petula fica em coma.
Mesmo com um ano de intervalo entre os lançamentos, quando tomamos contacto com a escrita leve e bem-humorada de Tonya Hurley, lembramo-nos imediatamente do primeiro volume e da peculiar história da morte de Charlotte – morreu engasgada com uma goma em forma de urso.
Notam-se algumas melhorias na linguagem e na estrutura da história, assim como uma aposta mais forte no humor negro e em referências à cultura pop, que consegue tratar de forma ligeira um tema tão pesado como o da morte.
As personagens continuam tão cativantes e interessantes como no primeiro volume. São introduzidas novas personagens fortes, como a irritante Maddy, e são aprofundadas outras já conhecidas: Scarlet, Damen e Petula.
Os temas e mensagens abordados neste segundo volume não diferem muito dos do primeiro. Por detrás da futilidade e até do ridículo de algumas personagens, Tonya Hurley continua a criticar a obsessão com a popularidade, a vaidade e a traição. Apesar disso, Ghostgirl acaba por ser uma história sobre o poder da amizade capaz de transpor a barreira entre a vida e a morte.
É impossível não referir a vertente estética desta obra. Se no primeiro volume já havia um cuidado especial com a edição, neste há uma melhoria incrível. Além do cuidado da autora com as citações, capítulos com títulos de músicas pop e pequenas reflexões filosóficas no início de cada um deles, é bastante agradável ver as páginas ornamentadas e apreciar os desenhos de inspirados no imaginário de Tim Burton.
Contudo, apesar de todas as melhorias a nível de escrita e de edição – Ghostgirl não é só agradável de se ler, mas também de se ver –, a história não é tão cativante como no primeiro romance. É interessante e divertida, mas ao mesmo tempo há um sentimento de ser “mais do mesmo”.
Apesar de dirigido a um público juvenil, Ghostgirl – O Regresso vem provar uma vez mais que até os adultos podem ficar rendidos ao humor e às mensagens da história de Charlotte Usher.»
Fábio Ventura, Bela Lugosi Is Dead
quinta-feira, 31 de março de 2011
terça-feira, 22 de março de 2011
Crítica de Leitor: «O Regresso»
«Tal como no primeiro volume desta série, um dos primeiros factores a chamar a atenção é o tom descontraído com que toda a história é apresentada. Com laivos de humor negro e um ambiente estranhamente leve (para um livro que tem como tema algo de tão sério e complexo como a morte), este regresso continua a surpreender pela visão suave de um mundo para lá da vida - e, principalmente, de um mundo intimamente ligado ao dos vivos. Permanece também a grande importância dada à popularidade, agora mais centrada na história de Petula (e, principalmente, nas atitudes das suas supostas amigas), mas também presente na forma como Charlotte parece ser manipulada durante grande parte da história.
O que me leva a Maddy. A introdução desta personagem introduz um novo elemento de interesse no enredo, desde a sua faceta misteriosa, ao seu lado manipulador e algo maquiavélico, culminando na revelação da sua verdadeira natureza. Por outro lado, este é um aspecto que talvez pudesse ter sido um pouco mais explorado, já que, para guardar o segredo até à fase final do livro, a interacção entre Maddy e Charlotte acaba por parecer, talvez, demasiado simples.
A história é, no fundo, bastante simples. Mas, tendo em conta não só o principal público alvo, mas também o desafio de conjugar um tema sério com um enredo divertido, o resultado é uma história envolvente, descontraída, e com alguns momentos particularmente interessantes. Para quem gostou do primeiro Ghostgirl, será, provavelmente, uma boa leitura.»
segunda-feira, 14 de março de 2011
Já disponível!
Finalmente, já está disponível numa livraria perto de si, ghostgirl - O Regresso! Agora poderá descobrir que novidades estão reservadas para Charlotte e os seus amigos, mortos e vivos.
Ficamos a aguardar as vossas opiniões. Nós aqui adorámos!
Boas leituras!
Ficamos a aguardar as vossas opiniões. Nós aqui adorámos!
Boas leituras!
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
«Uma linha ténue...»
«Se não esperarmos nada, nunca nos sentiremos decepcionados.
À excepção de certos poetas idealistas ou de alguns monges que vivem no cimo de montanhas, todos acalentamos expectativas. Não só as temos como precisamos delas. São um estímulo para os nossos sonhos, as nossas esperanças e as nossas vidas, são como uma bebida energética com uma dose acrescida de cafeína. Charlotte podia ter deixado de viver, mas não deixara de sonhar, embora tivesse fortes suspeitas de que os seus sonhos permaneciam eternamente em suspenso.»
À excepção de certos poetas idealistas ou de alguns monges que vivem no cimo de montanhas, todos acalentamos expectativas. Não só as temos como precisamos delas. São um estímulo para os nossos sonhos, as nossas esperanças e as nossas vidas, são como uma bebida energética com uma dose acrescida de cafeína. Charlotte podia ter deixado de viver, mas não deixara de sonhar, embora tivesse fortes suspeitas de que os seus sonhos permaneciam eternamente em suspenso.»
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Exclusivo! Excerto de «O Regresso»
«A sua morte por asfixia com um urso de goma em plena sala de aulas mudara tudo, é certo, mas nem tudo era mau. A morte, muito mais do que a vida, fizera-a crescer como pessoa. Com os colegas de turma do Ensino para Mortos e o professor Brain, um homem solidário e compreensivo, aprendera a dar valor ao trabalho em equipa, ao altruísmo e ao sacrifício. Chegara mesmo a ir ao Baile de Outono com Damen, o rapaz dos seus sonhos.
Até certo ponto, pelo menos. Mais importante, porém, fora ter descoberto uma grande amiga e uma alma gémea em Scarlet Kensington, uma ligação por que ansiara ao longo de toda a sua vida. Realizara a passagem com satisfação, cheia de esperança e expectativas. Porém, o seu futuro, que durante um minuto se lhe apresentara radioso, surgia-lhe agora cada vez mais como um beco sem saída. Decididamente, o Outro Mundo não era como Charlotte imaginara. Ao invés de um paraíso, assemelhava-se mais ao dia a seguir ao Natal. Todos os dias. Começou a fazer uma lista do que «devia» ter acontecido, mas não acontecera.
Não vira portas feitas de pérolas. Não ouvira o som de harpas. Tudo o que encontrara fora mais trabalho.
Lembrava-se de que, à chegada, os alunos do Ensino para Mortos haviam permanecido fechados numa sala de espera vazia e monocromática, uma espécie de cela prisional só que sem as grades. Era um espaço imponente em tudo diferente do encanto duvidoso do gabinete de admissão do Liceu Hawthorne. Os colegas foram chamados um por um e conduzidos até uma porta de aço de aspecto anódino. Tal como acontecia em vida, Charlotte fora a última a ser chamada.
– Usher – chamara por fim o senhor Markov, que usava óculos com armação de tartaruga e vestia um fato de corte prático e confortável –, Usher, Charlotte.
– Presente! – respondera, feliz por alguém finalmente ter chamado o seu nome, preocupando-se em pronunciá-lo correctamente.
– Óptimo – ripostou num tom seco que afectou de modo considerável a boa disposição de Charlotte. – Tivemos alguns problemas técnicos com as linhas e quisemos certificar-nos de que tudo estava em funcionamento para que pudessem começar de imediato.
– Começar? Começar o quê?
Charlotte sentia-se cansada de começos e estava decidida a pôr-lhes termo. Queria parar de aprender, de trabalhar, de desejar. Tudo. Sem lhe dar resposta, o homem conduziu-a até ao espaço seguinte: uma divisão repleta de cubículos rectangulares e telefones todos iguais. Contemplou-a por breves instantes sem compreender exactamente o que via. O lugar e todos os que nele se encontravam pareciam ser a cauda de algo que estivera vivo mas era agora uma massa inerte e embalsamada, quase uma peça de museu. Havia muito pouco para ver. Era tudo tão… desinteressante.
– Será que Deus tem um canal de televendas? – gracejou, timidamente.
Passeou os olhos pela divisão e alguns pormenores atraíram a sua atenção. Todos os seus colegas de turma tinham uma secretária e um telefone, restando um único lugar vago. Os alunos do Ensino para Mortos já estavam sentados e sentiu-se contente por terem conseguido chegar até ali todos juntos, fosse onde fosse esse «ali».
Markov deu início à sua palestra. Era mais um discurso de boas-vindas, embora estivesse longe de ser tão franco e interactivo como o que proferira o professor Brain quando haviam entrado no Ensino para Mortos. Este homem fazia lembrar mais um sargento instrutor do que um guru.
– Tudo o que aprenderam – anunciou Markov – trouxe-vos até aqui.
O tom da sua voz não lhes permitia saber ao certo se deviam ou não sentir-se orgulhosos.
– No entanto, estar aqui não é o mesmo que estar lá. O agora não é o antes – disse.
– O que é isto? – Charlotte perguntou a Pam em voz baixa.
– Segundo parece, terminámos o secundário e agora temos de fazer um estágio – sussurrou Pam do seu posto.
– Este é o sítio onde serão postos à prova, onde terão de aplicar os ensinamentos que receberam – prosseguiu o senhor Markov.
– É um call centre com transmissão via satélite – alvitrou Prue.
– Não, é uma linha de apoio – disse ele.
– Uma linha de apoio? Para onde? Para quê? – perguntou Charlotte, incrédula.
– Adolescentes com problemas.
– Podia ser um pouco mais específico? – incitou Charlotte na mais doce voz de aprendiz que conseguiu imitar. – Caso não tenha percebido, todos os adolescentes têm problemas.
Markov era um homem impaciente, com dificuldade em tolerar comentários sarcásticos da parte de quem estava sob a sua alçada, mas, vendo a perplexidade de todos os estagiários, sentiu-se na obrigação de ser mais explícito.
– Já alguma vez discutiram convosco mesmos? – perguntou.
– A toda a hora – respondeu Suzy Arranhadora com uma expressão pensativa.
– Dentro da nossa própria cabeça, é isso? – perguntou Pam, apreendendo o conceito primeiro do que os outros.
– Precisamente – confirmou o senhor Markov. – Serão a voz dentro da cabeça de outras pessoas. Quando elas estiverem com medo ou confusas ou quando se sentirem sozinhas ou estiverem a
ponderar tomar uma atitude impensável, o vosso telefone tocará.
– Uma espécie de mentor que ajuda celebridades a manterem-se sóbrias? – perguntou CoCo numa voz animada, deixando entrever, uma vez mais, a sua anterior dependência em relação aos tablóides.
– Será a vossa oportunidade de serem úteis, de praticarem o bem e de transmitirem aos outros o que aprenderam – acrescentou Markov.
– Vai ser muito fixe voltar a falar com pessoas vivas! – exclamou Charlotte, revelando que não estava a compreender a situação.
– Não vão propriamente falar com elas, Usher – corrigiu ele.
– Funcionarão mais como a sua…
– Como a sua consciência – interrompeu Charlotte, provando que entendera melhor do que parecera.
– Exactamente – disse Markov.
[...]»
Até certo ponto, pelo menos. Mais importante, porém, fora ter descoberto uma grande amiga e uma alma gémea em Scarlet Kensington, uma ligação por que ansiara ao longo de toda a sua vida. Realizara a passagem com satisfação, cheia de esperança e expectativas. Porém, o seu futuro, que durante um minuto se lhe apresentara radioso, surgia-lhe agora cada vez mais como um beco sem saída. Decididamente, o Outro Mundo não era como Charlotte imaginara. Ao invés de um paraíso, assemelhava-se mais ao dia a seguir ao Natal. Todos os dias. Começou a fazer uma lista do que «devia» ter acontecido, mas não acontecera.
Não vira portas feitas de pérolas. Não ouvira o som de harpas. Tudo o que encontrara fora mais trabalho.
Lembrava-se de que, à chegada, os alunos do Ensino para Mortos haviam permanecido fechados numa sala de espera vazia e monocromática, uma espécie de cela prisional só que sem as grades. Era um espaço imponente em tudo diferente do encanto duvidoso do gabinete de admissão do Liceu Hawthorne. Os colegas foram chamados um por um e conduzidos até uma porta de aço de aspecto anódino. Tal como acontecia em vida, Charlotte fora a última a ser chamada.
– Usher – chamara por fim o senhor Markov, que usava óculos com armação de tartaruga e vestia um fato de corte prático e confortável –, Usher, Charlotte.
– Presente! – respondera, feliz por alguém finalmente ter chamado o seu nome, preocupando-se em pronunciá-lo correctamente.
– Óptimo – ripostou num tom seco que afectou de modo considerável a boa disposição de Charlotte. – Tivemos alguns problemas técnicos com as linhas e quisemos certificar-nos de que tudo estava em funcionamento para que pudessem começar de imediato.
– Começar? Começar o quê?
Charlotte sentia-se cansada de começos e estava decidida a pôr-lhes termo. Queria parar de aprender, de trabalhar, de desejar. Tudo. Sem lhe dar resposta, o homem conduziu-a até ao espaço seguinte: uma divisão repleta de cubículos rectangulares e telefones todos iguais. Contemplou-a por breves instantes sem compreender exactamente o que via. O lugar e todos os que nele se encontravam pareciam ser a cauda de algo que estivera vivo mas era agora uma massa inerte e embalsamada, quase uma peça de museu. Havia muito pouco para ver. Era tudo tão… desinteressante.
– Será que Deus tem um canal de televendas? – gracejou, timidamente.
Passeou os olhos pela divisão e alguns pormenores atraíram a sua atenção. Todos os seus colegas de turma tinham uma secretária e um telefone, restando um único lugar vago. Os alunos do Ensino para Mortos já estavam sentados e sentiu-se contente por terem conseguido chegar até ali todos juntos, fosse onde fosse esse «ali».
Markov deu início à sua palestra. Era mais um discurso de boas-vindas, embora estivesse longe de ser tão franco e interactivo como o que proferira o professor Brain quando haviam entrado no Ensino para Mortos. Este homem fazia lembrar mais um sargento instrutor do que um guru.
– Tudo o que aprenderam – anunciou Markov – trouxe-vos até aqui.
O tom da sua voz não lhes permitia saber ao certo se deviam ou não sentir-se orgulhosos.
– No entanto, estar aqui não é o mesmo que estar lá. O agora não é o antes – disse.
– O que é isto? – Charlotte perguntou a Pam em voz baixa.
– Segundo parece, terminámos o secundário e agora temos de fazer um estágio – sussurrou Pam do seu posto.
– Este é o sítio onde serão postos à prova, onde terão de aplicar os ensinamentos que receberam – prosseguiu o senhor Markov.
– É um call centre com transmissão via satélite – alvitrou Prue.
– Não, é uma linha de apoio – disse ele.
– Uma linha de apoio? Para onde? Para quê? – perguntou Charlotte, incrédula.
– Adolescentes com problemas.
– Podia ser um pouco mais específico? – incitou Charlotte na mais doce voz de aprendiz que conseguiu imitar. – Caso não tenha percebido, todos os adolescentes têm problemas.
Markov era um homem impaciente, com dificuldade em tolerar comentários sarcásticos da parte de quem estava sob a sua alçada, mas, vendo a perplexidade de todos os estagiários, sentiu-se na obrigação de ser mais explícito.
– Já alguma vez discutiram convosco mesmos? – perguntou.
– A toda a hora – respondeu Suzy Arranhadora com uma expressão pensativa.
– Dentro da nossa própria cabeça, é isso? – perguntou Pam, apreendendo o conceito primeiro do que os outros.
– Precisamente – confirmou o senhor Markov. – Serão a voz dentro da cabeça de outras pessoas. Quando elas estiverem com medo ou confusas ou quando se sentirem sozinhas ou estiverem a
ponderar tomar uma atitude impensável, o vosso telefone tocará.
– Uma espécie de mentor que ajuda celebridades a manterem-se sóbrias? – perguntou CoCo numa voz animada, deixando entrever, uma vez mais, a sua anterior dependência em relação aos tablóides.
– Será a vossa oportunidade de serem úteis, de praticarem o bem e de transmitirem aos outros o que aprenderam – acrescentou Markov.
– Vai ser muito fixe voltar a falar com pessoas vivas! – exclamou Charlotte, revelando que não estava a compreender a situação.
– Não vão propriamente falar com elas, Usher – corrigiu ele.
– Funcionarão mais como a sua…
– Como a sua consciência – interrompeu Charlotte, provando que entendera melhor do que parecera.
– Exactamente – disse Markov.
[...]»
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Ghostgirl no facebook
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Adaptação a TV da série ghostgirl!
Tonya Hurley prepara-se para lançar uma série de televisão inspirada nos livros da ghostgirl. Actualmente ainda se encontra em negociações com o canal norte-americano FOX, mas tudo indica que a adaptação está para breve.
Enquanto a série não chega, poderão ver alguns vídeos feitos por fãs e trailers internacionais dos livros. AQUI.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
As personagens de ghostgirl
Como a romântica incurável do liceu Hawthorne, Charlotte Usher era gozada e ignorada pelos colegas. Esforçou-se de tal forma para se tentar integrar que acabou por engasgar-se com uma goma e morrer. Logo depois acordou no mundo dos espíritos, onde ainda teve de frequentar a escola, numa turma especial cheia de adolescentes mortos, todos eles com histórias típicas de adolescentes que os conduziram a um fim prematuro.
Agora, como ghostgirl, Charlotte recusa-se a deixar de lado os seus sonhos e o mundo onde viveu, e usa as suas novas capacidades sobrenaturais para ganhar popularidade e, o mais importante, para conquistar o coração de Damen. Invisível, tanto na vida como na morte, Charlotte encontra-se num mundo que não entende enquanto continua obcecada por um mundo de que já não faz parte.
A rapariga mais “cool” do liceu Hawthorne, Scarlet é a única pessoa viva que consegue ver Charlotte. É inteligente, esperta e independente, mas prefere estar sozinha do que andar com a irmã mais velha, Petula, e os seus amigos bajuladores, os “Wendys”. É a ovelha negra da escola e não faz definitivamente parte do “rebanho” de Hawthorne.
Todos o desejam, especialmente Charlotte. Ela acredita que se ele a conhecesse melhor, que ficaria perdidamente apaixonado por ela. É bonito, encantador e atlético. Não é muito de estudar, mas é o capitão da equipa de futebol e sabe secretamente mais sobre cordas de guitarra do que sobre a Teoria das Cordas. Juntamente com a sua vaidosa e traiçoeira namorada Petula, são eles que definem as regras: os rapazes querem ser como ele, e as raparigas querem ser como ela. Todas as raparigas, menos Scarlet.
A rapariga mais popular do liceu Hawthorne e chefe de claque, Petula Kensington passa o tempo a fazer marcas de cirurgias plásticas nos amigos, a admirar-se em frente a qualquer coisa espelhada e a arranjar novas formas de excluir as pessoas. Secretamente invejada por Charlotte e pelo resto das colegas, Petula não quer saber de ninguém a não ser de si própria. Petula e Damen estão juntos, apesar de não terem nada em comum a não ser um bilhete premiado na lotaria do ADN e porque, enfim, são populares e é mesmo assim que as coisas funcionam.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Elogios da crítica internacional
«Os fãs de Tim Burton e de Edgar Allan Poe vão ficar mortinhos por ler este fantasmagórico livro.»
School Library Journal
«Leitores com gosto por histórias satíricas, carregadas de humor negro, irão deliciar-se com os diálogos espirituosos de Tonya Hurley.»
VOYA
«As grandes batalhas de Harry Potter contra as forças do mal não são nada comparadas com as lutas de Charlotte com um inimigo ainda mais feroz - o liceu.»
Herald-Standard
School Library Journal
«Leitores com gosto por histórias satíricas, carregadas de humor negro, irão deliciar-se com os diálogos espirituosos de Tonya Hurley.»
VOYA
«As grandes batalhas de Harry Potter contra as forças do mal não são nada comparadas com as lutas de Charlotte com um inimigo ainda mais feroz - o liceu.»
Herald-Standard
Excerto do 1.º capítulo
«Charlotte Usher atravessou, determinada, o parque de estacionamento em direcção à porta principal do Liceu Hawthorne, repetindo o seu mantra positivo: «Este ano é diferente. Este é o meu ano.» Em vez de ficar eternamente gravada na mente dos colegas como a rapariga que se limitava a ocupar espaço, aquela que preenchia um lugar, que inspirava o precioso ar que bem podia ser usado para outros fins, este ano ia começar com o outro pé, um pé envolto no sapato mais sensual e desconfortável que o dinheiro podia comprar.
Desperdiçara o ano anterior a sentir-se uma enteada indesejada no corpo estudantil do Liceu Hawthorne e não lhe apetecia repetir a experiência. Este ano, o primeiro dia de aulas seria o primeiro dia da sua nova vida. Ao aproximar-se da escadaria principal, começou a ver, na entrada, os últimos flashes das máquinas fotográficas do pessoal que assegurava a execução do livro de curso, enquanto Petula Kensington e o seu grupo se pavoneavam pelo corredor fora. Eram sempre as últimas a chegar e, depois, como que sugavam toda a gente atrás de si numa espécie de maré ultrapopular. Com a sua entrada, começara oficialmente o ano lectivo. E Charlotte estava sozinha na rua, atrasada para o ritual. Era o costume. Até agora.
O contínuo que estava à entrada espreitou para fora e olhou em redor, para ver se vinha mais alguém. Não vinha. Bem, na verdade vinha, mas, como era habitual, nem reparou em Charlotte, que começou a ganhar velocidade enquanto ele ia fechando a enorme porta de metal. A ela, parecia-lhe a porta de uma caixa-forte. No entanto, destemida desta vez, Charlotte chegou à entrada e deparou-se apenas com espaço suficiente para, bem espremida, introduzir o sapato novo, impedindo a porta de se fechar.
– Desculpa, não te vi – murmurou o contínuo com indiferença.
Não fora vista, como era de esperar, mas conseguira um certo reconhecimento e um pedido de desculpas. O seu Plano de Popularidade – uma lista de afazeres que ela elaborara meticulosamente na esperança de arrebatar Damen Dylan, o objecto do seu desejo – devia estar a funcionar.
À semelhança de muitos colegas, Charlotte passara o Verão inteiro a trabalhar, mas, ao contrário da maioria, por conta própria, na área do restauro, por assim dizer. Examinara com toda a minúcia o livro de curso do ano anterior como se a sua vida dependesse dele.
Estudara Petula, a rapariga mais popular da escola, e as suas duas amiguinhas lambe-botas, as Wendys – Wendy Anderson e Wendy Thomas –, tal como algumas fãs estudam a celebridade que adoram. Ela queria que o resultado fosse perfeito. Tal como elas.
Aproximou-se, confiante, do primeiro destino na sua ordem de trabalhos: o registo nas audições para cheerleader. Cheerleader – a irmandade mais prezada e exclusiva, e o seu Bilhete Dourado não apenas para ser vista, como também para ser invejada. Charlotte pegou na velha caneta que balouçava do bloco de mola, presa por uma corda esfiapada que, por sua vez, estava segura por fita-cola, e começou a escrever o seu nome no primeiro espaço em branco.
Começava ela a traçar o C, quando lhe bateram bruscamente no ombro. Charlotte parou o que estava a fazer e virou-se para ver quem lhe interrompia a primeira tarefa do dia – não, da sua nova vida – e foi então que viu uma fila de raparigas que tinham «acampado» a noite inteira para se inscreverem. Aquele agrupamento lembrava mais uma audição do que uma inscrição.
A detestável candidata mirou-a de cima a baixo, agarrou na caneta e escreveu o seu nome ao mesmo tempo que riscava o de Charlotte. Depois, abriu a mão e deixou que a caneta caísse, impotente, e ficasse a balançar na corda.
Charlotte ficou a ver a caneta chocar contra a parede como um enforcado.
Ouviu o grupo de aspirantes a cheerleaders a soltar risadinhas nas suas costas quando se foi embora. Não era a primeira vez que Charlotte era vítima daquele tipo de crueldade – frente a frente e nas suas costas – e sempre tentara não se preocupar com aquilo que as outras pessoas pensavam ou diziam dela. Porém, aquele processo de transição em que se encontrava ainda não lhe dera calo suficiente para contrariar uma humilhação total. Charlotte tentou não pensar mais no assunto, recusando-se a perder a paciência e a dignidade. Consultou o seu plano e murmurou «Lista de Cacifos» ao mesmo tempo que riscava essas palavras da lista e se dirigia, apressada, ao destino seguinte.
Enquanto caminhava, o itinerário daquele Verão passava-lhe velozmente pela mente. Para ser sincera, tinha de admitir que se dera a um esforço ridículo para conseguir as atenções dele. Alguns diriam excessivo. Não passara por nenhuma cirurgia, nada de tão radical, mas o cabelo, a dieta, o guarda-roupa, os preparativos e o estilo tinham-lhe tomado as férias por completo. Afinal, apostara em si própria e, ao fim e ao cabo, o que poderia haver de mal numa dose maciça de melhoria da sua pessoa?
Claro que ela sabia tratar-se sobretudo… está bem, completamente, de coisas superficiais, mas e então? Se a sua vida até àquele momento servisse de indicador de alguma coisa, todos aqueles sermões acerca da «beleza interior» não passavam de uma grande treta. A «beleza interior» não faz com que uma pessoa seja convidada para as melhores festas, com as pessoas mais fixes. Certamente não faz com que se seja convidada para o Baile de Outono, como par de Damen Dylan.
A questão era que Damen era uma prioridade, e as datas-limite, como o baile, motivavam Charlotte. A vida consistia numa série de escolhas, e ela fizera a sua.
Conseguia justificar aquele seu desvio pelo caminho da superficialidade como tratando-se de um passo estratégico. A seu ver, só havia duas maneiras de se chegar até junto de Damen. Uma delas era através de Petula e do seu bando. Contudo, dada a reputação de Charlotte, ou a falta dela, não havia boas hipóteses de o conseguir. Aquelas miúdas tinham sido sempre populares. Haveriam sempre de o ser. Na verdade, toda a essência da popularidade residia no facto de ser inalcançável. Não era uma coisa para a qual se trabalhasse, ou que fosse conquistada. Era conferida – por quem ou porquê, pensou Charlotte, continuava a ser um mistério.
No entanto – e era aqui que o plano de acção de Charlotte se tornava mais subtil –, se ela conseguisse parecer-se com Petula e com as Wendys, agir como elas, pensar como elas, «encaixar-se» no grupo de pessoas com quem Damen se dava, podia ser que tivesse uma hipótese com ele. O «parecer» tem muito que se lhe diga e ela estava convencida de que, pelo menos nessa parte, fora bem-sucedida.
Isto levou-a até à outra maneira de se aproximar de Damen. A melhor opção. Aquela que ela preferia: passar completamente por cima das raparigas e ir directamente para junto de Damen. Tratava-se de uma jogada arriscada, sem dúvida, uma vez que ela não tinha lá muito o estilo de namoradeira. A maquilhagem era o primeiro passo necessário, mas a fase seguinte seria a do vai ou racha. Inscrevera-se em disciplinas que sabia que ele ia escolher e planeava andar por perto do cacifo dele, que se preparava agora para localizar.
Tal como toda a gente, Damen nunca reparara em Charlotte e era improvável que um pouco de maquilhagem e um penteado de cabeleireiro alterassem esse facto. Ainda assim, Charlotte tinha esperança. Esperava que, se passasse algum tempo de qualidade com ele, especialmente agora que melhorara o seu aspecto, as coisas pudessem dar certo.
Não se tratava meramente de um desejo fantasioso, mas de uma conclusão que ela retirara de uma observação intensiva de Damen. Nas centenas de retratos que secretamente lhe tirara ao longo dos anos, Charlotte acreditava ter detectado nele uma certa… bem, uma certa decência. Percebia-se nos seus olhos, no seu sorriso.
Damen era lindo e atlético, e comportava-se exactamente como seria de esperar de um rapaz desse tipo – com uma atitude de superioridade –, mas fazia-o de uma forma agradável. Não era de estranhar que a decência fosse a qualidade que Petula menos apreciava nele. Talvez por ser aquela de que ela e as amigas mais careciam.
Com o riso das candidatas a cheerleaders ainda ecoando nos seus ouvidos, Charlotte bem precisava de um pouco de sorte ao aproximar-se do ginásio. As listas dos cacifos estavam afixadas nas portas duplas e Charlotte pôs-se na fila para as consultar. Percorreu a coluna de alunos por ordem alfabética com o dedo, na página P-Z, e olhou para os números dos cacifos enquanto procurava o seu.
Todos os nomes eram familiares; eram miúdos com os quais tinha crescido, que conhecia desde a pré-primária, da primária ou do liceu. Os seus rostos surgiam-lhe na mente como numa sessão de slides. E foi então que deparou com o nome dela:
USHER, CHARLES – Cacifo 7
– O sete é um número da sorte! – exclamou, tomando-o como um bom auspício. – Na verdade, é um número bíblico.
Procurou na mochila e retirou de lá um lápis, que tornou a atirar lá para dentro, e depois agarrou numa caneta. Mudou para sempre o seu nome de «Charles» para «Charlotte». Queria que tudo corresse bem, especialmente hoje.
Uma nova pesquisa com o dedo pela lista abaixo revelou que o cacifo de Damen ficava do outro lado do edifício. Dirigiu-se ao seu próprio cacifo, dizendo para si própria palavras de ânimo.
«Não é nada de especial», assegurou a si mesma enquanto experimentava por diversas vezes a combinação do cacifo, abrindo e fechando a porta, antes de ir à procura do de Damen.
Continuou a andar e a falar consigo, gesticulando como uma actriz a ensaiar um monólogo, até que começou a sentir-se sufocar.
Estava tão embrenhada nos seus pensamentos que chegara à passagem aérea que ligava os edifícios, a qual estava repleta de fumadores que davam as últimas passas antes das aulas. A exalação sincronizada de monóxido de carbono produzia um nevoeiro denso e acre, mas já era tarde demais para suster a respiração, por isso acelerou o passo. As conversas iam terminando, uma a uma, à medida que ela avançava. As beatas acesas eram mergulhadas em copos de plástico com café no fundo ou esmagadas no cimento, e os fios ondulantes de fumo escapavam para o céu a toda a volta.
Quando saiu daquela névoa e se aproximou das portas ao fundo da passagem, Charlotte viu um grupo de miúdos reunidos junto à saída, como caçadores de autógrafos à porta de um espectáculo esgotado.
– Damen! – arquejou com veneração.
Por sobre a multidão, a única coisa que ela via era o seu cabelo espesso e belo, mas não precisava de mais. Sabia que era o cabelo dele. Sem fixador, nem cera, nem gel, óleo, espuma ou qualquer insinuação de metrossexualidade de espécie alguma; apenas uma cabeça linda de cabelos ondulados. Charlotte ficou de olhos postos no prémio ao mesmo tempo que desatou numa correria estranhamente desesperada, que lembrava a que tivera de fazer até à paragem do autocarro naquela manhã, e dirigiu-se, ofegante, para o cacifo ao lado do dele. Chegou mesmo antes de Damen e da sua multidão adoradora, que se afastara para o deixar passar.
Fazia algum tempo que não se encontrava assim tão perto dele fisicamente, o que a afectou mais do que imaginara. Vira-o, ou, pelo menos, fotografias dele, durante todo o Verão, mas agora era a sério.
Estava ofuscada. Quando ele se aproximou, a multidão convergiu. Quanto mais ele avançava, menos ela o via. Charlotte mergulhou no bulício de actividade que o circundava, tentando aproximar-se ainda mais; porém, sempre que o fazia, afundava-se no turbilhão. Naquele seu primeiro dia, Charlotte deu por si numa posição que lhe era tão familiar: de fora, a olhar para o interior.»
Desperdiçara o ano anterior a sentir-se uma enteada indesejada no corpo estudantil do Liceu Hawthorne e não lhe apetecia repetir a experiência. Este ano, o primeiro dia de aulas seria o primeiro dia da sua nova vida. Ao aproximar-se da escadaria principal, começou a ver, na entrada, os últimos flashes das máquinas fotográficas do pessoal que assegurava a execução do livro de curso, enquanto Petula Kensington e o seu grupo se pavoneavam pelo corredor fora. Eram sempre as últimas a chegar e, depois, como que sugavam toda a gente atrás de si numa espécie de maré ultrapopular. Com a sua entrada, começara oficialmente o ano lectivo. E Charlotte estava sozinha na rua, atrasada para o ritual. Era o costume. Até agora.
O contínuo que estava à entrada espreitou para fora e olhou em redor, para ver se vinha mais alguém. Não vinha. Bem, na verdade vinha, mas, como era habitual, nem reparou em Charlotte, que começou a ganhar velocidade enquanto ele ia fechando a enorme porta de metal. A ela, parecia-lhe a porta de uma caixa-forte. No entanto, destemida desta vez, Charlotte chegou à entrada e deparou-se apenas com espaço suficiente para, bem espremida, introduzir o sapato novo, impedindo a porta de se fechar.
– Desculpa, não te vi – murmurou o contínuo com indiferença.
Não fora vista, como era de esperar, mas conseguira um certo reconhecimento e um pedido de desculpas. O seu Plano de Popularidade – uma lista de afazeres que ela elaborara meticulosamente na esperança de arrebatar Damen Dylan, o objecto do seu desejo – devia estar a funcionar.
À semelhança de muitos colegas, Charlotte passara o Verão inteiro a trabalhar, mas, ao contrário da maioria, por conta própria, na área do restauro, por assim dizer. Examinara com toda a minúcia o livro de curso do ano anterior como se a sua vida dependesse dele.
Estudara Petula, a rapariga mais popular da escola, e as suas duas amiguinhas lambe-botas, as Wendys – Wendy Anderson e Wendy Thomas –, tal como algumas fãs estudam a celebridade que adoram. Ela queria que o resultado fosse perfeito. Tal como elas.
Aproximou-se, confiante, do primeiro destino na sua ordem de trabalhos: o registo nas audições para cheerleader. Cheerleader – a irmandade mais prezada e exclusiva, e o seu Bilhete Dourado não apenas para ser vista, como também para ser invejada. Charlotte pegou na velha caneta que balouçava do bloco de mola, presa por uma corda esfiapada que, por sua vez, estava segura por fita-cola, e começou a escrever o seu nome no primeiro espaço em branco.
Começava ela a traçar o C, quando lhe bateram bruscamente no ombro. Charlotte parou o que estava a fazer e virou-se para ver quem lhe interrompia a primeira tarefa do dia – não, da sua nova vida – e foi então que viu uma fila de raparigas que tinham «acampado» a noite inteira para se inscreverem. Aquele agrupamento lembrava mais uma audição do que uma inscrição.
A detestável candidata mirou-a de cima a baixo, agarrou na caneta e escreveu o seu nome ao mesmo tempo que riscava o de Charlotte. Depois, abriu a mão e deixou que a caneta caísse, impotente, e ficasse a balançar na corda.
Charlotte ficou a ver a caneta chocar contra a parede como um enforcado.
Ouviu o grupo de aspirantes a cheerleaders a soltar risadinhas nas suas costas quando se foi embora. Não era a primeira vez que Charlotte era vítima daquele tipo de crueldade – frente a frente e nas suas costas – e sempre tentara não se preocupar com aquilo que as outras pessoas pensavam ou diziam dela. Porém, aquele processo de transição em que se encontrava ainda não lhe dera calo suficiente para contrariar uma humilhação total. Charlotte tentou não pensar mais no assunto, recusando-se a perder a paciência e a dignidade. Consultou o seu plano e murmurou «Lista de Cacifos» ao mesmo tempo que riscava essas palavras da lista e se dirigia, apressada, ao destino seguinte.
Enquanto caminhava, o itinerário daquele Verão passava-lhe velozmente pela mente. Para ser sincera, tinha de admitir que se dera a um esforço ridículo para conseguir as atenções dele. Alguns diriam excessivo. Não passara por nenhuma cirurgia, nada de tão radical, mas o cabelo, a dieta, o guarda-roupa, os preparativos e o estilo tinham-lhe tomado as férias por completo. Afinal, apostara em si própria e, ao fim e ao cabo, o que poderia haver de mal numa dose maciça de melhoria da sua pessoa?
Claro que ela sabia tratar-se sobretudo… está bem, completamente, de coisas superficiais, mas e então? Se a sua vida até àquele momento servisse de indicador de alguma coisa, todos aqueles sermões acerca da «beleza interior» não passavam de uma grande treta. A «beleza interior» não faz com que uma pessoa seja convidada para as melhores festas, com as pessoas mais fixes. Certamente não faz com que se seja convidada para o Baile de Outono, como par de Damen Dylan.
A questão era que Damen era uma prioridade, e as datas-limite, como o baile, motivavam Charlotte. A vida consistia numa série de escolhas, e ela fizera a sua.
Conseguia justificar aquele seu desvio pelo caminho da superficialidade como tratando-se de um passo estratégico. A seu ver, só havia duas maneiras de se chegar até junto de Damen. Uma delas era através de Petula e do seu bando. Contudo, dada a reputação de Charlotte, ou a falta dela, não havia boas hipóteses de o conseguir. Aquelas miúdas tinham sido sempre populares. Haveriam sempre de o ser. Na verdade, toda a essência da popularidade residia no facto de ser inalcançável. Não era uma coisa para a qual se trabalhasse, ou que fosse conquistada. Era conferida – por quem ou porquê, pensou Charlotte, continuava a ser um mistério.
No entanto – e era aqui que o plano de acção de Charlotte se tornava mais subtil –, se ela conseguisse parecer-se com Petula e com as Wendys, agir como elas, pensar como elas, «encaixar-se» no grupo de pessoas com quem Damen se dava, podia ser que tivesse uma hipótese com ele. O «parecer» tem muito que se lhe diga e ela estava convencida de que, pelo menos nessa parte, fora bem-sucedida.
Isto levou-a até à outra maneira de se aproximar de Damen. A melhor opção. Aquela que ela preferia: passar completamente por cima das raparigas e ir directamente para junto de Damen. Tratava-se de uma jogada arriscada, sem dúvida, uma vez que ela não tinha lá muito o estilo de namoradeira. A maquilhagem era o primeiro passo necessário, mas a fase seguinte seria a do vai ou racha. Inscrevera-se em disciplinas que sabia que ele ia escolher e planeava andar por perto do cacifo dele, que se preparava agora para localizar.
Tal como toda a gente, Damen nunca reparara em Charlotte e era improvável que um pouco de maquilhagem e um penteado de cabeleireiro alterassem esse facto. Ainda assim, Charlotte tinha esperança. Esperava que, se passasse algum tempo de qualidade com ele, especialmente agora que melhorara o seu aspecto, as coisas pudessem dar certo.
Não se tratava meramente de um desejo fantasioso, mas de uma conclusão que ela retirara de uma observação intensiva de Damen. Nas centenas de retratos que secretamente lhe tirara ao longo dos anos, Charlotte acreditava ter detectado nele uma certa… bem, uma certa decência. Percebia-se nos seus olhos, no seu sorriso.
Damen era lindo e atlético, e comportava-se exactamente como seria de esperar de um rapaz desse tipo – com uma atitude de superioridade –, mas fazia-o de uma forma agradável. Não era de estranhar que a decência fosse a qualidade que Petula menos apreciava nele. Talvez por ser aquela de que ela e as amigas mais careciam.
Com o riso das candidatas a cheerleaders ainda ecoando nos seus ouvidos, Charlotte bem precisava de um pouco de sorte ao aproximar-se do ginásio. As listas dos cacifos estavam afixadas nas portas duplas e Charlotte pôs-se na fila para as consultar. Percorreu a coluna de alunos por ordem alfabética com o dedo, na página P-Z, e olhou para os números dos cacifos enquanto procurava o seu.
Todos os nomes eram familiares; eram miúdos com os quais tinha crescido, que conhecia desde a pré-primária, da primária ou do liceu. Os seus rostos surgiam-lhe na mente como numa sessão de slides. E foi então que deparou com o nome dela:
USHER, CHARLES – Cacifo 7
– O sete é um número da sorte! – exclamou, tomando-o como um bom auspício. – Na verdade, é um número bíblico.
Procurou na mochila e retirou de lá um lápis, que tornou a atirar lá para dentro, e depois agarrou numa caneta. Mudou para sempre o seu nome de «Charles» para «Charlotte». Queria que tudo corresse bem, especialmente hoje.
Uma nova pesquisa com o dedo pela lista abaixo revelou que o cacifo de Damen ficava do outro lado do edifício. Dirigiu-se ao seu próprio cacifo, dizendo para si própria palavras de ânimo.
«Não é nada de especial», assegurou a si mesma enquanto experimentava por diversas vezes a combinação do cacifo, abrindo e fechando a porta, antes de ir à procura do de Damen.
Continuou a andar e a falar consigo, gesticulando como uma actriz a ensaiar um monólogo, até que começou a sentir-se sufocar.
Estava tão embrenhada nos seus pensamentos que chegara à passagem aérea que ligava os edifícios, a qual estava repleta de fumadores que davam as últimas passas antes das aulas. A exalação sincronizada de monóxido de carbono produzia um nevoeiro denso e acre, mas já era tarde demais para suster a respiração, por isso acelerou o passo. As conversas iam terminando, uma a uma, à medida que ela avançava. As beatas acesas eram mergulhadas em copos de plástico com café no fundo ou esmagadas no cimento, e os fios ondulantes de fumo escapavam para o céu a toda a volta.
Quando saiu daquela névoa e se aproximou das portas ao fundo da passagem, Charlotte viu um grupo de miúdos reunidos junto à saída, como caçadores de autógrafos à porta de um espectáculo esgotado.
– Damen! – arquejou com veneração.
Por sobre a multidão, a única coisa que ela via era o seu cabelo espesso e belo, mas não precisava de mais. Sabia que era o cabelo dele. Sem fixador, nem cera, nem gel, óleo, espuma ou qualquer insinuação de metrossexualidade de espécie alguma; apenas uma cabeça linda de cabelos ondulados. Charlotte ficou de olhos postos no prémio ao mesmo tempo que desatou numa correria estranhamente desesperada, que lembrava a que tivera de fazer até à paragem do autocarro naquela manhã, e dirigiu-se, ofegante, para o cacifo ao lado do dele. Chegou mesmo antes de Damen e da sua multidão adoradora, que se afastara para o deixar passar.
Fazia algum tempo que não se encontrava assim tão perto dele fisicamente, o que a afectou mais do que imaginara. Vira-o, ou, pelo menos, fotografias dele, durante todo o Verão, mas agora era a sério.
Estava ofuscada. Quando ele se aproximou, a multidão convergiu. Quanto mais ele avançava, menos ela o via. Charlotte mergulhou no bulício de actividade que o circundava, tentando aproximar-se ainda mais; porém, sempre que o fazia, afundava-se no turbilhão. Naquele seu primeiro dia, Charlotte deu por si numa posição que lhe era tão familiar: de fora, a olhar para o interior.»
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Excertos,
ghostgirl,
Primeiro capítulo
Elogios a "ghostgirl"
«[...]Com este livro a autora Tonya Hurley, mostra o quanto podemos ignorar e ser ignorados. E o quanto estamos desesperados por mudar essa situação.
O próprio livro tem uma apresentação única.
Pode dizer-se que é um livro juvenil, mas acho que pode ser lido por qualquer faixa etária,
adequando-se a cada um de nós.
Divertido... e fico à espera do segundo volume, porque promete.»
O próprio livro tem uma apresentação única.
Pode dizer-se que é um livro juvenil, mas acho que pode ser lido por qualquer faixa etária,
adequando-se a cada um de nós.
Divertido... e fico à espera do segundo volume, porque promete.»
Sónia Areia, no blog Segredo dos Livros
«Este é um livro muito agradável aos olhos. Está muito bem organizado, com reflexões e citações no início de capítulo e a capa e páginas estão belissimamente decoradas. Em relação à estória, é muito original, direccionada para o público adolescente, mas que todos podem apreciar. Eu gostei muito. Fartei-me de sorrir e rir com algumas situações caricatas e fiquei abismada com a imaginação da autora. [...]»
Joana Caires, no blogue Segredo dos Livros
«Ghostgirl – A Rapariga Invisível é uma boa aposta da Contraponto e prova porque é que o livro esteve na lista dos mais vendidos do New York Times. Sem grandes pretensiosíssimos, a história (da morte) de Charlotte Usher cumpre a sua função e cativa o seu público-alvo sem problemas, embora também possa agradar a um público mais velho. Original, inteligente e terrivelmente divertido, Ghostgirl é um título obrigatório para quem gosta deste género de literatura.»
Fábio Ventura, no blogue Bela Lugosi Is Dead
«Este é um livro muito agradável aos olhos. Está muito bem organizado, com reflexões e citações no início de capítulo e a capa e páginas estão belissimamente decoradas. Em relação à estória, é muito original, direccionada para o público adolescente, mas que todos podem apreciar. Eu gostei muito. Fartei-me de sorrir e rir com algumas situações caricatas e fiquei abismada com a imaginação da autora. [...]»
Joana Caires, no blogue Segredo dos Livros
«Ghostgirl – A Rapariga Invisível é uma boa aposta da Contraponto e prova porque é que o livro esteve na lista dos mais vendidos do New York Times. Sem grandes pretensiosíssimos, a história (da morte) de Charlotte Usher cumpre a sua função e cativa o seu público-alvo sem problemas, embora também possa agradar a um público mais velho. Original, inteligente e terrivelmente divertido, Ghostgirl é um título obrigatório para quem gosta deste género de literatura.»
Fábio Ventura, no blogue Bela Lugosi Is Dead
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